sexta-feira, 25 de novembro de 2011

O HOMEM INDESTRUTÍVEL

O homem indestrutível era sozinho, abnegado pelas frases da vida. Já vivera milhares de anos, vendo todos os seus amigos e familiares morrerem. A queda de cada um foi uma dor intocada que pressionou o vazio no peito onde deveria haver um coração. Não havia. Apenas um buraco negro de emoções malfadadas e discretas. Queria amar, queria tocar, mas não sentia nada.

Do alto da colina, avistava o mundo. Decidiu se isolar da humanidade para evitar ataques de medo. Não pertencia àquele lugar. Ficava pensando em como teria sido se habitasse os campos férteis da mortalidade. A passagem é a coisa mais digna que sobrevêm à vida. É uma homenagem a obra, ao jeito, aos atos pelos quais os indivíduos serão lembrados. Não dispunha de tal privilégio. Estaria ali presente até que o sol explodisse e levasse o universo consigo. Não gostava, mas aceitava passivamente, como se esperasse fazer parte de um plano maior.

Certa vez apareceu uma pequena garotinha. Perdida na floresta, se separou dos pais. A primeira reação da menina foi a mesma de todos: um choque no olhar, como se alma tivesse sido sugada pela terra. O branco dos olhos tomara as pupilas até o cérebro se acostumar com figura isolada. Era apenas um homem, porém tragado pelo tempo e pela solidão. Não faria mal a ninguém, somente a si mesmo. A menininha se aproximou e tocou sua mão. Na face triste, algo que não sentira durante muito tempo: um sorriso. Discreto, mas suficiente. A mínima das criaturas capaz de quebrar paradigmas, a bela domando a fera.

A menina se fora, mas voltou ao longo dos anos até sentir o tempo chegar e depositar-se em suas feições. A jovialidade foi uma benção passageira substituída gradativamente pela experiência das interações. Morreria em breve, estava com câncer. O homem ensaiou tristeza, mas novamente seus sentimentos lhe falharam. Foi a última vez que se viram, mas lembraria dela para sempre, como o fez com tantos outros.

Lá o homem permaneceu. Viu o começo da lenda humana, viu as Cruzadas, viu de perto as pinturas de Da Vinci, viu Hitler espalhar o terror pela Europa. E nisso tudo, permaneceu sempre igual, negando, mesmo frente às dilações da história, mantendo os mesmos erros entre as épocas que se sucederam. E foi neste momento que entendeu seu propósito. Nunca foi exclusividade sua a repetição de atos e lamentação pelo passado. Ele era tudo, ele era todos. Ele seria quem somos, isolado no planeta, isolados no universo, para sempre.

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Eu pensei: e se uma única história fosse capaz de trazer diferentes interpretações? E se vários fatos, apesar de caminhos diversos, culminassem em um único fim? Quem é o homem, quem é a menina, quem é a história?

FUIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIII

BOM FINAL DE SEMANA!

6 comentários:

Felicce Di Lucca disse...

Parabens pela riqueza do texto,
pelça apurada sensibilidade e pela beleza da mensagem.
Felicce Di Lucca

LUZ MARIA disse...

Um texto complexo em que apenas você sabe o significado. Qualquer tentativa de alguém querer decifrar ,com certeza ,errará na interpretação. Mas como eu sou chata e gosto de metáforas ,vou tentar. Acho que o Homem é a concentração de todas as energias( pessoas que já morreram) que já se foram dêste planeta (me baseei em: ..."não dispunha de tal privilégio...",(em relação ,eu acho,à morte ). O fato dele ter visto tudo o que acontecia e aconteceu através do passar do tempo,mostra que ele não conseguiu fazer a passagem( "...não dispunha de tal privilégio..."!)e foi obrigado a vivenciar e ver a humanidade vivendo seus acertos e seus erros. A menina é a vida,querendo tentar resgatá-lo,mas...impossível,ele não tem esse "privilégio". Não sei...tentei. Parabéns pela bela postagem...difícilllllllllllllll!

Srtª d'Ávila disse...

Olá!! Tudo bom? Parabéns pelo blog. Todo o conteudo do seu blog é muitissimo interessante. Seguindo!!! Lhe convido para visitar o meu e seguir se gostar, é claro. Abraço.

http://esasdulcespalabras.blogspot.com

Selena Linhares disse...

Postagem muito interessante...enigmática. Mas acho,pela minha experiência que você está tentando focar a Imortalidade de uma forma negativa,aquela que causa sofrimento para quem vive mais...ou ainda na ficção ,para aqueles ( em filmes),que são imortais. A minha opinão e vou dá-la, independente se escrevo de uma forma "exaustiva",como falou aquela pessoinha. Bem,a minha opinião é que todo mundo tem o seu tempo aqui e não devemos ficar mais do que nos é devido,sob pena de não nos adaptarmos às novas gerações e sofrermos muito com isso.
Um recadinho para a pessoinha que achou o meu comentário "exaustivo":...se tu não consegues ler um comentário daquele tamanho,será que consegues ler algum livro? ou até uma revista quem sabe!

Gabriel disse...

Obrigado pelos elogios, pessoal. Na verdade, cada um pode ter uma interpretação sobre o texto. Tudo depende da forma como se encaram as coisas. Continuo atento a teorias! heheheh

Ps: Selena, eu gosto dos seus comentários longos. É bom trocar idéias com pessoas inteligentes.

abraços!

Selena disse...

Obrigada Gabriel. Sempre farei comentários assim , pois suas postagens induzem a isso. Não tenho Blog e nem pretendo ter ( falta de tempo),mas não sou contra quem faz comentários apenas para fazer propaganda de "seu Blog".