terça-feira, 24 de janeiro de 2012

FRAGMENTOS URBANOS

Estimulado pelo início do ano, resolvi dar atenção aos variados concursos literários que aparecem na mídia. Comecei pelo da Carris, em Porto Alegre, "Fragmentos urbanos" que visa a expansão da cultura sobre pontos turísticos que não estão no caminho convencional da cidade. Li, em um site qualquer, que tratava-se de um texto de até 750 palavras quando, na verdade, a Carris procurava textos de até 750 caracteres para exibir em cartões postais. A versão final, portanto, se apresentou muito mais resumida do que a crônica abaixo. Fui limitado pelo concurso, mas não pelo Gato Gordo. Lembram-se do Atlas? Vejam:

Adentrar os arredores da Praça da Alfândega é mergulhar em um poço de história. Daquela região emergiram algumas das mais importantes estruturas administrativas da cidade; fundamentais, pois levaram Porto Alegre a condição privilegiada em que se encontra hoje: capital do Rio Grande do Sul. Ao frio de uma tarde ensolarada de outono, me movo via transporte público entre os caminhos de ruas que respiram nostalgia e lembranças do tempo e espaço. Surpreendo-me quando, em um prédio “amarelo”, vejo a estátua de um poderoso guardião, o qual já tinha conhecimento anterior visto leituras sobre a mitologia grega: Atlas, o enclausurado titã obrigado pelos deuses a segurar a Terra em suas costas. Meus olhos penetram a estrutura e me obrigam a descer do veículo, de modo a vislumbrar com maior intensidade os acontecimentos os quais aquele gigante já presenciou. Imagino, em silêncio, uma sonora conversa, na qual permito que o titã libere-se do encargo de Zeus, solte o mundo por alguns instantes e passe a me contar tudo o que já vivenciou. “Minha missão é carregar a Terra. Esta foi a penitência que meus superiores me impuseram. Mas não reclamo, pois é um privilégio segurar simbolicamente o mundo, sendo que, na verdade, estou mantendo um dos corações dessa cidade”. Eu não entendo o que Atlas diz, então peço que explique melhor suas palavras. “Você não vê? Cumpro minha obrigação frente aos olhos de admiradores que observam a minha imponência perdida milhares de anos atrás. Em Porto Alegre, encontrei minha felicidade novamente. Mesmo em uma rua alternativa da Praça, ouço histórias; muitas. Sou o melhor guia que você poderá encontrar”. Esfrego os olhos para desfazer o sonho, mas vejo que Atlas continua falando. “Neste mesmo prédio “amarelo” o qual resido, em estilo eclético, funcionou a primeira Alfândega de Porto Alegre, dando o nome da Praça. Hoje, os funcionários da Inspetoria da Receita Federal dão suas caras. Todos me olham na entrada; nunca na saída, pois sabem que, ao deixarem meus domínios, foram abençoados pelo mais poderoso dos titãs”. Pergunto a Atlas se ele não se cansa da mesmice. “É claro que não. Você tem noção o que aprendi por aqui? Enraizei todos os caminhos, todas as possibilidades e vi de perto a paixão humana pela cultura, pela história! Por exemplo, se saíres daqui, da Rua Sepúlveda, e adentrares de vez na Praça da Alfândega, poderá ver outras maravilhas. O MARGS, sempre cultural por suas magistrais obras; o Memorial das lembranças gaúchas, lindo pelos detalhes; e o edifício Hudson, no qual Caldas Júnior esforçava-se para formular as primeiras edições do Correio do Povo, visando unificar a informação para o povo gaúcho e porto-alegrense. Não me canso de falar das coisas boas, dos maiores bens acima de quaisquer outros valores materiais”. Paro por alguns momentos e, sem temer, digo que Atlas fala com amor, mas é um amor mentiroso, pois nunca viu nenhuma daquelas estruturas. Estaria ali parado, preso por toda a eternidade. “Tens razão, mas contanto que as pessoas estejam felizes e aproveitando o que sua cidade tem de melhor, eu alcancei meu propósito. Se assim não fosse, provavelmente já teria largado o mundo faz tempo, mesmo que tivesse de sofrer duros castigos de Zeus. A mensagem que posso passar a você e a todo cidadão de Porto Alegre é simples: viva sua cidade, mas não deixe de respirar o mundo”. E esse foi o fim da conversa. Pensei por vários instantes e então entendi o recado. Atlas me ensinou que povo só cresce se respeitar suas tradições, suas fontes de conhecimento. Da Praça da Alfândega emerge um dos maiores potenciais culturais do Rio Grande do Sul, por aonde nossos antepassados viveram, morreram e iniciaram a formação concreta da civilização contemporânea gaúcha. Do coração da Praça, seu guardião me ensinou o real valor dela. É um orgulho morar nessa cidade.

Era isso por hoje!

2 comentários:

Dionísio W disse...

Interessante.

Selena Linhares. disse...

Postagem extremamente cultural e até um pouquinho complicada de entender,mas é só dar uma passadinha pela Mitologia Grega que a gente logo consegue entender o porquê de Atlas ter que carregar o Mundo nas costas. Parabéns. Selena.