segunda-feira, 9 de abril de 2012

GATO GORDO ENTREVISTA: RENATA AZEVEDO

Hoje o Gato Gordo vai agir em defesa daqueles que não têm voz ou ímpeto quando seus direitos ficam ameaçados. A impunidade, que achávamos exclusividade para com seres humanos, perpetua-se covardemente sobre todos os reinos da vida. Os animais deixaram de ser meros expectadores do mundo. Restou a nós protegê-los. Para tal, hoje faremos uma entrevista com Renata Azevedo, analista ambiental do Instituto Chico Mendes.

1) Olá, Renata, tudo bem? Você trabalha com a gestão ambiental tendo os animais como extensão da destruição do meio em que vivem. Além das práticas laborais inerentes a seu cargo, você exerce alguma espécie de ativismo?

Renata: Não chamaria o que eu faço paralelo as minhas atividades como analista ambiental de “ativismo”. Na verdade, por morar na Amazônia e sempre ter trabalhado em órgãos ambientais, eu sempre estive muito próxima dos animais silvestres, seja convivendo com os animais apreendidos, com os animais entregues de forma voluntária. Muitas vezes, eu acabo cuidando dos filhotes órfãos (vítimas do tráfico e da caça) entregues nesses órgãos (secretarias de meio ambiente, Ibama, Icmbio), animais que são atropelados, animais que precisam de cuidados especiais... também apóio o Ibama na destinação dos animais que não podem voltar pra natureza, buscando zoológicos e criadouros em todo Brasil.

O que acontece é que somos poucos na área ambiental, principalmente aqui na Amazônia, então nós precisamos trabalhar de forma integrada, apoiando uns aos outros. E quando aparecem esses animais desamparados, acabamos assumindo a responsabilidade de ajudá-los a se restabelecer e destiná-los de acordo com cada caso. Nesses sete anos de Amazônia, já cuidei de onças a tamanduás, passando por macacos, porcos do mato... Faço isso por amor e, principalmente, porque esses animais não têm culpa de serem retirados da natureza, na maioria das vezes, de forma cruel e traumática, assim como, quando são atropelados, retirados de suas mães, capturados para servirem ao tráfico.

2) As campanhas de defesa aos animais estão crescendo nos últimos anos. O que de prático esse tipo de movimentação tem trazido? Há uma mudança geral na consciência da população?

Renata: As campanhas têm sido bastante insuficientes. O problema é gigantesco e eu tenho dúvidas se teremos tempo de reverter essa situação. A grande questão é que somos (profissionais da área ambiental, simpatizantes, pessoas com maior consciência ambiental) muito poucos e, além disso, a batalha contra os interesses econômicos acaba sendo muito desleal. Pra mim, a única solução é uma mudança radical e rápida de consciência da população. Deixar o pensamento egoísta de lado e pensar no coletivo, pensar que nós fazemos parte desse meio ambiente que tanto se fala e que nós somos responsáveis por mantê-lo equilibrado para garantir a integridade e a sobrevivência das próximas gerações, ou seja, dos nossos filhos, dos nossos netos. Se existe uma chance de mudarmos esse cenário desastroso, é através da mudança de pensamento das pessoas. Somente uma população consciente dos danos que estamos causando a nós mesmos é capaz de reverter esse quadro. É preciso adotar hábitos/práticas menos degradantes e, principalmente, cobrar dos governantes políticas públicas ambientalmente aceitáveis, mas que saiam do papel e aconteçam na prática.

Sim, a gente percebe uma consciência um pouco maior da população, mas não sei se suficiente. As pessoas ainda se colocam muito distantes dos problemas ambientais, acompanhando as mudanças apenas como espectadores, como se fossem incapazes de fazer alguma coisa. Quando na verdade, a mudança deveria vir exatamente da população! Como eu falei anteriormente, na mudança de hábitos, cobrando ações efetivas dos governantes, saindo de suas zonas de conforto e agindo, se mexendo pela manutenção da “nossa casa”.

3) As penalidades impostas aos que sequestram, maltratam ou matam animais têm caráter primordialmente repressor? Ou a questão educativa também é preponderante? E mais, têm trazido efeitos?

Renata: Lei de Crimes Ambientais (9.605 de 1998) em seu artigo 29 diz que: matar, perseguir, caçar, apanhar, utilizar espécimes da fauna silvestre, nativos ou em rota migratória, sem a devida permissão, licença ou autorização da autoridade competente, ou em desacordo com a obtida, tem como consequência a detenção de 6 meses a 1 ano, além da multa. Infelizmente, não conheço uma pessoa, nem mesmo os maiores traficantes, que foi presa por cometer crime contra a fauna. O que eu quero dizer com isso é que, infelizmente a questão ambiental no Brasil, não é levada a sério. O governo não leva a questão ambiental à sério e, consequentemente, os infratores continuam cometendo crimes ambientais pois sabem que as penalidades previstas não serão aplicadas, as multas não serão pagas e nada acontece!

Trabalhar a educação ambiental é fundamental! É um trabalho de formiguinha que, em muitos lugares, tem resultados bastante expressivos, principalmente, quando feito com crianças. Infelizmente, só educar não basta. A velocidade, a crueldade e a ignorância dos crimes ambientais é assustadora, o que torna a repressão mais que necessária.

4) A evolução capitalista ainda está muito longe de ficar consoante a preocupações ambientais?

Renata: Eu acho que esse é o grande desafio da nossa batalha! Convencer que é possível desenvolver um país, um planeta de forma sustentável. A tecnologia está aí, à disposição dos países. Hoje em dia temos alternativas sustentáveis para quase todas as práticas que utilizam os recursos naturais como fonte, é só querer! Infelizmente, não podemos ser tão inocentes a ponto de esquecer que a ganância é dominante. O dinheiro, o lucro, o “ganhar cada vez mais a qualquer custo”, sempre vão se sobrepor a qualquer questão, seja ambiental, social.

5) Recentemente, o irmão mais velho do Gato Gordo, o Gato Obeso, foi atropelado por um caminhão. Quinze vezes, ida e volta. Por sorte, o invólucro enorme de banha que acompanha o felino foi suficiente para amortecer o impacto das rodas, de modo que não houve prejuízo a integridade corporal do mesmo. Se um dia uma pessoa presenciar um acontecimento como este ou, no caso em vogue, maus tratos contra animais silvestres, a quem deve se dirigir primeiramente?

Renata: Qualquer tipo de maus tratos a animais silvestres ou domésticos deve ser denunciado aos órgãos ambientais. Se você presenciar uma cena de maus tratos a animais ou souber de algum caso, é seu dever denunciar. No caso de animais domésticos, procure as associações protetoras de animais que, com certeza, darão mais importância a sua denúncia e a chance de alguma coisa ser feita é maior. No caso de animais silvestres, procure o órgão ambiental, seja municipal (secretaria de meio ambiente), estadual (Fepam) ou federal (Ibama), e faça a denúncia.

6) Pode-se afirmar que a Agenda XXI, resultante da Convenção das Nações Unidas no RJ em 1992 sobre o meio ambiente, é a grande cartilha do desenvolvimento sustentável?

Renata: A Agenda 21 é mais um dos tantos documentos, tratados e acordos firmados, mas que pouco acontecem na prática. Criar acordos, estabelecer metas, sem o real comprometimento dos países, não adianta muito. Estamos a poucos meses da Rio+20 e eu confesso que estou bem curiosa para saber qual vai ser o balanço da revisão das metas estabelecidas em 1992, o que de fato está sendo cumprido e as novas metas que serão estabelecidas. É muita política, muita conversa e pouca prática!

7) Existem diversas espécies sob risco de extinção. Quão alarmante é o estudo nessa área?

Renata: A principal ameaça à perda da biodiversidade é a destruição do habitat. A velocidade com que os ambientes são destruídos juntamente com as mudanças ambientais que vivemos, ameaçam fortemente as espécies. A cada dia perdemos milhares de espécies e o mais grave é que, muitas dessas, são espécies que ainda nem conhecemos, que ainda não foram descritas. Existem vários estudos que fazem previsões bastante pessimistas, porém bem realistas, que apontam que, 150 espécies são extintas todos os dias no mundo.

8) Certa vez eu estava conversando com um amigo e ele precisou ir ao banheiro. Antes, porém, ele disse que lá iria "cortar o rabo do macaco". Você que conhece dos direitos animais, por favor, poderia me explicar a frase? Devo denunciá-lo a algum órgão de proteção?

Renata: Não tenho a menor ideia do significado desta expressão!

9) Os recursos que o Instituto Chico Mendes dispõe são suficientes para uma efetiva cobertura da gestão ambiental? Ou há muito a ser feito?
Renata: Sem dúvida os recursos ainda são bastante escassos e insuficientes para uma gestão eficiente das unidades de conservação. Pra se ter uma ideia, o orçamento do Ministério do Meio Ambiente é um dos menores, o que reflete a importância que o governo brasileiro dá ao tema.
O Brasil tem um longo caminho a percorrer no que diz respeito à gestão de unidades de conservação. Estamos muito atrasados para não dizer engatinhando! Deveríamos aprender e copiar os exemplos bem sucedidos de gestão que temos em vários países do mundo. Claro que eu duvido que tais exemplos não sejam conhecidos pelos tomadores de decisão, por isso, como falei anteriormente, acredito que o que falta é interesse!
10) Aproveite o espaço desta última pergunta e mande uma mensagem a população. Fale algo pertinente que a coletividade deva saber visando a preservação do ambiente e dos direitos daqueles que não tem voz para se defender.
Renata: Eu acho que a principal mensagem que posso deixar aos leitores é que cada um faça uma reflexão sobre o seu papel nessa batalha. O que eu estou fazendo pra tentar reverter esse quadro? Se não estou fazendo nada, será que não está na hora de começar a pensar? De começar a agir? De mudar hábitos?
Se ainda temos alguma chance de reverter essa situação, podem ter certeza que essa mudança tem que partir de nós, da sociedade.
Renata Bocorny de Azevedo – Bióloga, Especialista em Animais Silvestres e Mestre em Zoologia pela PUCRS.
Analista Ambiental do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade - ICMBio

ERA ISSO POR HOJE!

4 comentários:

Anônimo disse...

Belas perguntas e boas respostas. Mas infelizmente o que acontece, é que o nosso Brasil é continental e é impossível cuidar de tudo.Os políticos não cuidam nem dos sêres humanos (menos eles,claro!!!)...vão cuidar dos animais? Eu sou uma pessimista convicta,acho que não há solução para esses animais,se houver,com certeza nem os meus bisnetos vão ver,talvêz os meus tataranetos. Assim como também, não há solução para os desmatamentos,para a violência,para a corrupção,para as drogas,para as diferenças sociais. NÃO HÁ SOLUÇÃO.Eu faço a minha parte,em relação aos animais,cuido muito bem do "Hero" ( meu periquito) e do "Small" ( meu yorkshire),eles têm de tudo!

Luz Maria Velloso disse...

Muito boa a entrevista entre o Blogueiro e a Bióloga. Ambos mostram bastante conhecimento. Achei o Blogueiro seguro em suas perguntas e a Bióloga também,só que nela ,eu percebi pouco estímulo ,um pessimismo. Nada tem solução,o Governo não faz nada,as leis não são cumpridas,ela cuida dos "Órfãos" e aí? O que fazer então?

Maria Quitéria/ Quita disse...

Não concordo que tudo tenha que partir de nós. E os 5 meses de nosso trabalho que damos para o Governo? O Impostômetro...
Não acho também que seja o povo Brasileiro,os culpados por elegerem esse bando de corruptos que só sabem encher os bolsos,as cuecas,os sacolões com o dinheiro...nosso dinheiro. Os candidatos que se apresentam ,são esses que estão aí e somos obrigados a votar,então...não temos saída.Enquanto isso,esses pobres animaizinhos vão continuar a sofrer.

Anônimo disse...

é de "chorar no cantinho" mesmo esse problema...imagina! espécies que já estão sendo perdidas e ainda nem foram descritas. è o caos!!!!!!!!!